Do Papa uma carta nada protocolar sobre a desafiadora tarefa de “guardar a fé”

Foto: Janwar Denbach | Pixaby Canva

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04 Julho 2023

"A "guarda da fé" expressa-se, portanto, na fidelidade ao Evangelho que é Jesus e no constante corajoso empenho em mudá-lo “em conversação com o contexto atual no que tem de inédito para a história da humanidade". Trata-se de “reconhecer a nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e condenam”. Esse é o caminho, no testemunho e promoção da verdade cristã, que é conforme o Evangelho guardado e transmitido pela Igreja e que o Concílio Vaticano II traçou à nossa frente", escreve Piero Coda, teólogo, padre italiano, ex-reitor do Instituto Universitário Sophia, de Loppiano, Itália, e membro da Comissão Teológica Internacional, em artigo publicado por Avvenire, 02-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Peço-lhe que, como prefeito, dedique seu empenho pessoal mais diretamente ao propósito principal do Dicastério que éguardar a fé’". Essas são a tarefa e a recomendação que o Papa Francisco entrega a Victor Manuel Fernández, até agora arcebispo de La Plata (Argentina), no momento de sua nomeação como prefeito do Dicastério para a doutrina da fé. Ele faz isso em uma mensagem dirigida ao novo prefeito que certamente não é protocolar: porque explicita com clareza e vigor o significado fundamental do empenho de "guardar a fé" - título da carta apostólica com a qual o próprio Francisco, em 11 de fevereiro do ano passado, havia modificado a sua estrutura – confiada ao Dicastério. De fato, a guarda da fé não significa sobretudo e simplesmente manter um depósito de doutrina dado de uma vez por todas, mas promover uma experiência e um entendimento cada vez mais profundos e aderentes ao caminho do povo de Deus daquela aquela verdade que é ao mesmo tempo caminho e verdade: sendo a verdade - como atesta o Evangelho de João - a presença sempre nova e atual do próprio Cristo na nossa história, na luz e na força do Espírito Santo.

A "guarda da fé" expressa-se, portanto, na fidelidade ao Evangelho que é Jesus e no constante corajoso empenho em mudá-lo “em conversação com o contexto atual no que tem de inédito para a história da humanidade". Trata-se de “reconhecer a nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e condenam”. Esse é o caminho, no testemunho e promoção da verdade cristã, que é conforme o Evangelho guardado e transmitido pela Igreja e que o Concílio Vaticano II traçou à nossa frente. A teologia, como entendimento da fé em diálogo - lê-se na Gaudium et spes – com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem”, deve medir-se com esse critério básico. Porque - ressalta o Papa Francisco – “falta-nos um pensamento que possa apresentar de forma convincente um Deus que ama, que perdoa, que salva, que liberta, que promove as pessoas e as convoca ao serviço fraterno".

Responder com determinação convicta e em espírito de comunhão e serviço a essa missão significa dar uma contribuição decisiva para o anúncio do Evangelho. Oferecendo com isso a contribuição insubstituível que é necessária para concretizar com pertinência e visão toda a mudança de paradigma - na leitura da realidade, sempre maior e mais desafiadora do que qualquer ideia - que a mudança de época exige. E significa fazê-lo com o método certo, aquele do Evangelho, e não com aquele, às vezes até "imoral" - sublinha o Papa Francisco com parrésia -, com o qual às vezes já foi feito no passado: assumindo que a verdade possa ser guardada e defendida colocando entre parênteses o respeito pela dignidade e a valorização da liberdade humana, na lógica sempre e em todo caso da primazia do amor. E isso comporta não perseguir a uniformidade de um pensamento único, mas trabalhar para que “as distintas linhas de pensamento filosófico, teológico e pastoral, se deixem harmonizar pelo Espírito Santo no respeito e no amor".

Em suma: uma tarefa desafiadora, mas bela e fascinante, à qual somos chamados ao "guardar a fé" através do serviço que o Dicastério para a Doutrina da Fé realiza ao serviço do Bispo de Roma, o Papa, e em unidade com ele de todas as igrejas. E certamente - como o Papa Francisco não deixa de destacar - monsenhor Fernández tem todas as credenciais para orientar a atividade do Dicastério para a Doutrina da Fé nesse caminho.

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